Queria fazer uma reflexão com todos os estudantes, ativistas e militantes sobre os recentes protestos em torno do problema do Transporte, em Goiânia.
Tem-se falado muito do transporte
coletivo em Goiânia e seus problemas. O quotidiano já é bem conhecido pela
população, em especial os trabalhadores e a juventude, que precisam do
transporte para se locomover, ir ao trabalho e à escola. Ônibus superlotados,
tarifas com preços bem arrochados, custo de vida alto. Mas, como todos sabem,
vieram as jornadas de junho do ano passado que mexeu um pouco na velha lógica
do quotidiano. Através de manifestações populares, não só em Goiânia como no
Brasil todos os aumentos foram barrados, várias lutas foram encampadas,
reivindicando em geral mais saúde, transporte, educação e fim da corrupção.
Está na ordem do dia conversar
sobre política, problemas da cidade, do local onde mora, estuda ou local de
trabalho. Os ventos de junto ainda sopram no nosso quotidiano. Mas o que isso
tudo tem a ver com a UFG?
A juventude sempre cumpriu um
papel protagonista em grandes mudanças históricas. E nas jornadas de junho de
2013, a juventude veio cumprir seu papel na história: boa parte trabalhava,
eram frutos desiludidos do prouni, na sua maioria eram mulheres e estavam indo
pra manifestações de rua pela primeira vez. Em Goiânia, boa parte dos ativistas
que construíram a luta pelo transporte eram universitários (junto com secundaristas),
com peso considerável da UFG. Teve também bastante acúmulo de lutas travadas
por estudantes desde 2010, através dos “comandos de luta contra o aumento da
passagem”, “comandos de luta pelo transporte”. Em todo esse período, de 2010
até 2013, houve muita luta, com vários métodos e táticas.
Resgato esse passado para dar luz
ao presente. Várias lutas, vários métodos é táticas ajudaram a pauta do
transporte acumular força e história. Nessa altura do campeonato, qualquer ativista
pode chegar e refletir: queimar um ônibus é legítimo ou não? Já de antemão, uma
coisa deve ser dita. Essa resposta não cabe mérito de princípios. “É um
princípio nosso queimar ônibus” ou “sempre seremos a favor da depredação de
bancos e órgãos públicos”. Princípios são de outra ordem, como da ordem moral e
política. São rígidos.
É necessário queimar um ônibus na
luta pelo transporte, contra o aumento da passagem, pela volta do programa
ganha-tempo, pela qualidade e estatização do transporte? Depende. Quais são os
limites e avanços? O que está em jogo? Primeiramente, o apoio da população e
sua participação protagonista.
Os ativistas e militantes, e
mesmo quem chega agora pras lutas sociais, devem sempre ter em mente alguns
elementos pra suas ações e, em particular, pras manifestações e atos de rua. A
análise de conjuntura é sempre necessária, que trocando miúdos é analisar e
considerar: correlação de forças entre manifestantes e polícia; adesão popular,
quantas pessoas vão ao ato; como que tá a segurança da manifestação; vai ser acompanhado
por mídias e etc. Muitas vezes se tem táticas de aparição e ação direta, como
queimar pneus ou um boneco de trapos (simbolizando alguma figura), parar o
trânsito, fazer piquetes, ocupações e etc.
Primeiramente, o que deve ter
muito claro em manifestações, atos e movimentos é sempre a estratégia, ou seja,
o objetivo final a ser conquistado, que muitas vezes é um caminho mais longo.
As táticas são todas as ações pontuais para se chegar a esse objetivo. Queimar
ônibus, no nosso contexto, só poder ser uma tática. E nesse sentido, devemos
pensar, quais são as melhores táticas para conseguir nossa estratégia? É aí que
entram as considerações. Qual ação mais radicalizada vai ajudar ou não a nossa
luta? Como vai dialogar com a população?
Todo movimento vitorioso deve
necessariamente trazer apoio e adesão da população. Por exemplo, é muito
diferente uma ato em que 5 mil pessoas quebram algum ônibus ou outro, em um
protesto simbólico, das ações individualizadas. E por muitas vezes, e isso
precisa ser deixado pra história, mudanças foram feitas na base da
intransigência e da radicalidade. Essas mudanças foram feitas com setores de
massa, como foram muitas conquistas de leis trabalhistas na história mundial e
nacional. Muitas greves de motoristas de ônibus importantes são históricas no
norte do país, no qual eles adotam a conhecida operação tartaruga – ligam os
ônibus na primeira marcha e liberam a catraca, dão altos prejuízos aos
empresários e nenhum pra população. E assim, eles conseguiram apoio de grande
parte da população e colheram vitórias.
Por isso, devemos pensar a
estratégia e as táticas adotadas pelo movimento em Goiânia. O episódio de
queimar o ônibus é só um detalhe dentro da questão. As táticas usadas estão
trazendo adesão, estão engrossando as fileiras das mobilizações e das
manifestações? Quais as táticas estão gerando mais apoio da população?
Não podemos criar fetiches. Não
podemos confundir princípios com táticas. Não é possível que uma tática sempre
vá dar certo (e não podemos pensar assim). É necessário acabar com o fetiche do
“quebra-quebra”, tão estimulado por alguns setores anarquistas. Alguns poderiam
dizer “então devemos ser contra as ações populares nos terminais, as quais tem
radicalização, como depredações de ônibus?”. Ser contra seria criminalizar a
luta da população e não devemos fazer isso. A violência catártica, a reação
imediata do oprimido no aperto e sufoco é legítima. Temos que apoiar e defender
de toda repressão, esse é o nosso dever! Totalmente diferente é se colocar na
vanguarda da luta e protagonizar ações no lugar das massas. Uma meia dúzia de “iluminados”
não deve substituir a ação do povo. Por isso, antes de tudo, o movimento deve
procurar com todas as forças apoio e adesão de setores da população, cada vez
mais, para fazer com que as massas possam ter experiência. E que nessa
experiência, se chegarem à conclusão que se deve queimar ônibus para ganhar uma
luta, nada mais democrático então (como muitos podem se lembrar da tomada, ou queda,
da bastilha na França do séc. XVIII).
Infelizmente, as manifestações em
Goiânia em torno do transporte estão perdendo forças, têm-se aglutinado cada
vez menos. Por isso, a reflexão: não é o momento de trazer mais gente, de
ganhar mais setores da população pra luta do transporte?
Concordar com isso é concordar
como estratégia. Concordando dessa maneira, todas nossas táticas se giram pra
essa estratégia. Isso inclui dialogar muitas vezes com os sentimentos mais
ariscos da população, medos e preconceitos. A falta de informação deve dar
lugar ao entendimento. Muitas vezes, trabalhadores que sofrem com a péssima
qualidade do transporte e com o aumento da tarifa não estão dispostos a
radicalizar no momento. O que fazemos? Vamos com eles pras ruas, vamos chama-los
para debater com a gente em nossas reuniões e para mostrar a indignação juntos.
Com a experiência, as conclusões chegarão.

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