quinta-feira, 10 de julho de 2014

AINDA HÁ TEMPO PARA O FUTEBOL BRASILEIRO VIRAR O JOGO



            A derrota em campo da seleção brasileira em uma Copa do mundo realizada em casa não foi algo tão imprevisível quanto parece, fora de campo já havíamos perdido com a realização da Copa do mundo no Brasil e o placar do jogo só reflete o caráter de classe que estamos vivendo no que diz respeito ao nosso esporte mais amado. O Futebol Brasileiro vive em crise a muito tempo e a culpa disso tudo não pode cair em cima dos jogadores e da comissão técnica, longe disso.
            O Futebol brasileiro vem sendo explorado por cartolas burgueses que afastam cada vez mais os torcedores dos estádios quando transformam nosso futebol de esporte e alegria em mercadoria. A maioria dos cartolas lucra milhões com a comercialização do nosso amor, e pior, vendem esse amor para a mídia, que para facilitar e reduzir os custos com a transmissão privilegiam 12 clubes brasileiros dentre os mais de 500 existentes. Isso, cada vez mais transforma esse esporte de uma opção de lazer para os trabalhadores e para a juventude espalhados em todo o Brasil em uma programação televisiva lucrativa além de uma excelente vitrine de marketing concentrada em apenas 12 clubes. Um exemplo disso é que só no ano passado os campeonatos estaduais, os que envolvem mais times, tiveram uma queda de 9,3% na média de publico em relação ao ano anterior segundo a revista Placar. Os grandes clubes regionais de massas como o Vila Nova, Santa Cruz, Sampaio Correia, Fortaleza, Remo e Paysandu sofrem com essa escolha do mercado burguês da bola por que não conseguem montar times competitivos com essa falta de investimentos e quem sofre mais ainda com isso são os verdadeiros brasileiros que acompanham esse esporte frequentemente nos estádios, por que eles tem que se conformar, ou se alienar, cada vez mais aos grandes clubes do eixo RJ-SP-RS-MG e os operários da bola que longe de ganharem milhões como os jogadores que atuam nesses clubes sofrem com a precarização das condições de trabalho, segundo o próprio site da CBF a média de salário dos jogadores profissionais brasileiros é de 1,5 salários mínimos e na maioria dos clubes brasileiros faltam estruturas mínimas como academias. 
            A realização da Copa do Mundo no Brasil acelerou ainda mais esse processo de elitização do futebol brasileiro, o preço do ingresso dos jogos para esses 12 clubes brasileiros privilegiados pela escolha do mercado e mídia futebolística esta cada vez mais caro, tirando cada vez mais o torcedor pobre de escanteio, mas isso não é de hoje, a algum tempo excluíram uma tradição do futebol brasileiro, a geral, onde os torcedores de menor poder aquisitivo podiam assistir jogos de campeonatos regionais pagando até 1 real. Essa é a face do caráter de classe desse futebol moderno gerido por cartolas que mandam na CBF que tem seus dirigentes eleitos pelos representantes de federações regionais com a unção dos cartolas. A CBF é uma verdadeira indústria que tem um patrimônio milionário e usa do sentimento honesto de milhões de brasileiros com relação a seleção para aumentar cada vez mais seus lucros, sem sequer devolver ao Estado um centavo dos lucros obtidos com a representação do futebol brasileiro. Os lucros dessa representação devem ser investidos na iniciação esportiva, para melhorar as condições das bases do nosso futebol e tirar da extrema precariedade milhões de jovens que sonham em ser jogadores profissionais mas enfrentam uma dura realidade de falta de estrutura quando não são enganados por cartolas golpistas. 
            As propostas do craque Romário (PSB-RJ) de reverter apenas uma alíquota de 5% dos lucros da CBF para o esporte brasileiro não resolvem o problema pois não tira nossa paixão, que eles transformaram em negócio, das mãos dos grandes empresários da bola. A CBF tem que ser estatizada pois deve ser do povo brasileiro para poder dar condições mínimas para os jovens que sonham em ser jogadores de futebol e realmente dar alegria para os brasileiros, como falou honestamente David Luiz, zagueiro da seleção brasileira. Precisamos apoiar cada vez mais o movimento Bom Senso, que foi criado por um grupo de jogadores que questiona a tabela exaustiva de jogos no calendário profissional brasileiro para que ele avance nas reivindicações por melhores condições de trabalhos para muitos jogadores que jogam longe dos holofotes da grande mídia e envolver os torcedores que frequentam cotidianamente os estádios para colocar na pauta do Bom Senso a questão dos preços dos ingressos, elitização do público, bem como o combate ao racismo, machismo e homofobia nas arquibancadas . 
            A luta do futebol brasileiro também é uma luta contra os grandes empresários e seus representantes políticos. No congresso existe uma bancada da CBF que votou contra a proposta mínima do deputado Romario (PSB) de destinar 5% dos lucros da CBF para o esporte brasileiro, Rodrigo Maia (DEM -RJ), Guilherme Campos (PSD-SP), Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), José Rocha (PR-BA) , Vicente Cândido (PT-SP),  Valdivino de Oliveira (PSDB-GO)  e Jovair Arantes (PTB-GO), votaram contra. Mas todos tem envolvimento diretamente com os cartolas, ou são os próprios cartolas. Jovair Arantes (PTB-GO) um cartola do futebol goiano chegou ao absurdo de chamar os jogadores do Atletico-GO de "come e dorme" quando esses jogadores que frequentemente recebiam salários atrasados apresentaram um baixo rendimento no campeonato brasileiro deste ano. 
            Jogando contra essa seleção de cartolas e essa bancada da CBF, sem uma estrutura de iniciação esportiva decente, condições de trabalho dignas e salários decentes para os muitos jogadores brasileiros fora dos holofotes e sem o torcedor trabalhador no estádio sempre vamos perder de 7 x 1. Ou o futebol brasileiro vai de encontro ao povo brasileiro e se populariza, ou se fecha e serve de satélite para o futebol europeu como o futebol regional brasileiro já serve de satélite para o futebol do eixo RJ-SP-RS-MG.

Igor Dias
Militante do PSTU,
Operário da Agroindústria Goiana
Presidente da Torcida Vila Metal


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Reflexões da Luta Pelo Transporte


Queria fazer uma reflexão com todos os estudantes, ativistas e militantes sobre os recentes protestos em torno do problema do Transporte, em Goiânia.
Tem-se falado muito do transporte coletivo em Goiânia e seus problemas. O quotidiano já é bem conhecido pela população, em especial os trabalhadores e a juventude, que precisam do transporte para se locomover, ir ao trabalho e à escola. Ônibus superlotados, tarifas com preços bem arrochados, custo de vida alto. Mas, como todos sabem, vieram as jornadas de junho do ano passado que mexeu um pouco na velha lógica do quotidiano. Através de manifestações populares, não só em Goiânia como no Brasil todos os aumentos foram barrados, várias lutas foram encampadas, reivindicando em geral mais saúde, transporte, educação e fim da corrupção.
Está na ordem do dia conversar sobre política, problemas da cidade, do local onde mora, estuda ou local de trabalho. Os ventos de junto ainda sopram no nosso quotidiano. Mas o que isso tudo tem a ver com a UFG?
A juventude sempre cumpriu um papel protagonista em grandes mudanças históricas. E nas jornadas de junho de 2013, a juventude veio cumprir seu papel na história: boa parte trabalhava, eram frutos desiludidos do prouni, na sua maioria eram mulheres e estavam indo pra manifestações de rua pela primeira vez. Em Goiânia, boa parte dos ativistas que construíram a luta pelo transporte eram universitários (junto com secundaristas), com peso considerável da UFG. Teve também bastante acúmulo de lutas travadas por estudantes desde 2010, através dos “comandos de luta contra o aumento da passagem”, “comandos de luta pelo transporte”. Em todo esse período, de 2010 até 2013, houve muita luta, com vários métodos e táticas.
Resgato esse passado para dar luz ao presente. Várias lutas, vários métodos é táticas ajudaram a pauta do transporte acumular força e história. Nessa altura do campeonato, qualquer ativista pode chegar e refletir: queimar um ônibus é legítimo ou não? Já de antemão, uma coisa deve ser dita. Essa resposta não cabe mérito de princípios. “É um princípio nosso queimar ônibus” ou “sempre seremos a favor da depredação de bancos e órgãos públicos”. Princípios são de outra ordem, como da ordem moral e política. São rígidos.
É necessário queimar um ônibus na luta pelo transporte, contra o aumento da passagem, pela volta do programa ganha-tempo, pela qualidade e estatização do transporte? Depende. Quais são os limites e avanços? O que está em jogo? Primeiramente, o apoio da população e sua participação protagonista.
Os ativistas e militantes, e mesmo quem chega agora pras lutas sociais, devem sempre ter em mente alguns elementos pra suas ações e, em particular, pras manifestações e atos de rua. A análise de conjuntura é sempre necessária, que trocando miúdos é analisar e considerar: correlação de forças entre manifestantes e polícia; adesão popular, quantas pessoas vão ao ato; como que tá a segurança da manifestação; vai ser acompanhado por mídias e etc. Muitas vezes se tem táticas de aparição e ação direta, como queimar pneus ou um boneco de trapos (simbolizando alguma figura), parar o trânsito, fazer piquetes, ocupações e etc.
Primeiramente, o que deve ter muito claro em manifestações, atos e movimentos é sempre a estratégia, ou seja, o objetivo final a ser conquistado, que muitas vezes é um caminho mais longo. As táticas são todas as ações pontuais para se chegar a esse objetivo. Queimar ônibus, no nosso contexto, só poder ser uma tática. E nesse sentido, devemos pensar, quais são as melhores táticas para conseguir nossa estratégia? É aí que entram as considerações. Qual ação mais radicalizada vai ajudar ou não a nossa luta? Como vai dialogar com a população?
Todo movimento vitorioso deve necessariamente trazer apoio e adesão da população. Por exemplo, é muito diferente uma ato em que 5 mil pessoas quebram algum ônibus ou outro, em um protesto simbólico, das ações individualizadas. E por muitas vezes, e isso precisa ser deixado pra história, mudanças foram feitas na base da intransigência e da radicalidade. Essas mudanças foram feitas com setores de massa, como foram muitas conquistas de leis trabalhistas na história mundial e nacional. Muitas greves de motoristas de ônibus importantes são históricas no norte do país, no qual eles adotam a conhecida operação tartaruga – ligam os ônibus na primeira marcha e liberam a catraca, dão altos prejuízos aos empresários e nenhum pra população. E assim, eles conseguiram apoio de grande parte da população e colheram vitórias.
Por isso, devemos pensar a estratégia e as táticas adotadas pelo movimento em Goiânia. O episódio de queimar o ônibus é só um detalhe dentro da questão. As táticas usadas estão trazendo adesão, estão engrossando as fileiras das mobilizações e das manifestações? Quais as táticas estão gerando mais apoio da população?
Não podemos criar fetiches. Não podemos confundir princípios com táticas. Não é possível que uma tática sempre vá dar certo (e não podemos pensar assim). É necessário acabar com o fetiche do “quebra-quebra”, tão estimulado por alguns setores anarquistas. Alguns poderiam dizer “então devemos ser contra as ações populares nos terminais, as quais tem radicalização, como depredações de ônibus?”. Ser contra seria criminalizar a luta da população e não devemos fazer isso. A violência catártica, a reação imediata do oprimido no aperto e sufoco é legítima. Temos que apoiar e defender de toda repressão, esse é o nosso dever! Totalmente diferente é se colocar na vanguarda da luta e protagonizar ações no lugar das massas. Uma meia dúzia de “iluminados” não deve substituir a ação do povo. Por isso, antes de tudo, o movimento deve procurar com todas as forças apoio e adesão de setores da população, cada vez mais, para fazer com que as massas possam ter experiência. E que nessa experiência, se chegarem à conclusão que se deve queimar ônibus para ganhar uma luta, nada mais democrático então (como muitos podem se lembrar da tomada, ou queda, da bastilha na França do séc. XVIII).
Infelizmente, as manifestações em Goiânia em torno do transporte estão perdendo forças, têm-se aglutinado cada vez menos. Por isso, a reflexão: não é o momento de trazer mais gente, de ganhar mais setores da população pra luta do transporte?

Concordar com isso é concordar como estratégia. Concordando dessa maneira, todas nossas táticas se giram pra essa estratégia. Isso inclui dialogar muitas vezes com os sentimentos mais ariscos da população, medos e preconceitos. A falta de informação deve dar lugar ao entendimento. Muitas vezes, trabalhadores que sofrem com a péssima qualidade do transporte e com o aumento da tarifa não estão dispostos a radicalizar no momento. O que fazemos? Vamos com eles pras ruas, vamos chama-los para debater com a gente em nossas reuniões e para mostrar a indignação juntos. Com a experiência, as conclusões chegarão.

terça-feira, 18 de março de 2014

O Brasil Mudou

O Brasil mudou, sua situação política mudou e o que parecia muito distante até então veio com uma força acelerada e fulminante. As mobilizações que aconteceram em junho deste ano já marcam a história das lutas em nosso país. A transformação na consciência do jovem brasileiro – que passou de uma condição passiva da política para uma não só ativa, mas cotidiana – permanecerá por muito tempo e não voltará para o mesmo nível do que era antes de junho. Quase dois meses após a semana em que dois milhões de pessoas foram às ruas em todo país, e um mês após a grande mobilização da classe trabalhadora no 11 de julho, ainda vemos várias manifestações da juventude, como as ocupações das câmaras e atos com as mais diversas pautas. Isso mostra toda a indignação do jovem brasileiro.
          Porém, para nós marxistas-leninistas, não basta contemplar o momento único que a história nos proporciona, é preciso ao máximo estudar a realidade sob a luz do método marxista para melhor compreendê-la e com isso avançarmos em nossas intervenções cotidianas. Isso significa que precisamos rever nossas posições políticas, ter sensibilidade para entendermos que uma alteração na situação política de um país exige uma alteração na política que vamos propor ao conjunto de ativistas e manifestantes, que as palavras de ordem antes puxadas já não surtem mais efeito, pois não estão adequadas para esse momento que passamos e que precisamos avaliar nossas antigas posições para não nos colocarmos como um empecilho para a transformação da sociedade. 
          Queremos aqui fazer uma polêmica fraterna com os camaradas do PSOL e sua principal política no movimento estudantil, a permanência na União Nacional dos Estudantes (UNE) a partir da composição da Oposição de Esquerda.

A verdadeira legitimidade da UNE na juventude brasileira


          É de conhecimento de uma parte dos ativistas e militantes do movimento estudantil brasileiro a recusa do PSOL em construir a Assembleia Nacional de Estudantes – Livre (ANEL), entidade estudantil surgida em 2009 com o intuito de se contrapor à política governista da UNE a partir de uma série de princípios que vão desde a independência financeira até a aliança operário-estudantil, princípios estes que não existem na UNE.
          Um dos principais argumentos utilizados pelos camaradas é a legitimidade que a UNE possui no conjunto dos estudantes brasileiros, o que justificaria a necessidade de participar dos fóruns da UNE, legitimá-los a partir da tiragem de delegados para seus espaços (como o que aconteceu recentemente para o CONUNE), e disputar cargos de direção da entidade.
          O CSOL – corrente interna do PSOL que constrói o coletivo Rompendo Amarras – afirma em um de seus documentos que “O Conune, maior espaço da entidade, costuma juntar aproximadamente 4 mil delegad@s e 8 mil estudantes no total. A tiragem de delegad@s por universidade, tendo quorum mínimo de 5 % do total de estudantes matriculados, significaria que aproximadamente 4 milhões de estudantes estariam “representad@s”. A expectativa da oposição de esquerda da UNE é de ter aproximadamente 400 delegad@s, sendo 400 mil “representad@s”[1]. Já o MES –  outra corrente interna do PSOL que constrói o coletivo Juntos – também se ancora no argumento da legitimidade da UNE entre a maioria dos estudantes brasileiros, e esta fala se confirma quando, no vídeo de chamado ao 53º CONUNE, uma das principais figuras públicas deste coletivo é o responsável por sustentar tal argumento. [2]
          Na lógica dos companheiros e companheiras do PSOL, uma vez que existe uma maioria esmagadora dos estudantes que legitimam e se sentem representados pela UNE, não é suficiente disputá-los diretamente em suas escolas e universidades, não são suficientes as ações clássicas do movimento estudantil, como passagens em salas e panfletagens nos Restaurantes Universitários. Não, a disputa só se tornaria completa quando participamos de todos os fóruns da UNE; só se tornaria completa quando tirássemos delegados para poder intervir com mais “qualidade” nos espaços; só se tornaria completa quando para “negá-la”, precisássemos afirmá-la ainda mais e numa proporção muito maior do que nossa suposta negação.
          Mesmo esse argumento por si só não sendo válido, a pergunta que precisamos fazer é: seria a UNE tão legítima e representativa para o jovem brasileiro como afirma o PSOL? Nas jornadas de junho, na semana entre 17 e 23, saíram às ruas mais de 2 milhões de pessoas em todo o Brasil, em sua maioria divididos em alguns grupos de secundaristas, universitários, e por fim (e provavelmente o grupo mais volumoso) jovens com empregos precarizados, que trabalham de dia para pagar o seu estudo, em uma universidade particular, à noite.
          Façamos um pequeno cálculo matemático agora: o PSOL afirma que milhões de estudantes (e, portanto milhões de jovens) legitimam e se sentem representados pela UNE, e a realidade nos mostra que milhões de jovens foram às ruas em junho. Não seria absurdo dizer que entre esses dois conjuntos (1. número de jovens que legitimam a UNE e 2. número de jovens que foram às ruas) há uma generosa intersecção de pelo menos alguns milhares de estudantes. Por que não se via jovens saírem de suas casas enrolados na famosa bandeira azul da entidade? E mais, por que nas mobilizações em todo o país esses jovens mandaram baixar as bandeiras da entidade que supostamente eles legitimam e se sentem representados?
          A resposta não pode ser outra, e não é: a verdade é que a UNE não representa a juventude que saiu às ruas; que a UNE que foi protagonista nas lutas do passado já não existe mais; e que essa juventude que está disposta a se chocar contra todas as formas de governos, só conhece a UNE a partir das fotos e a associa com o que há de pior na política brasileira e pelos regulares ataques que ela faz aos direitos estudantis. Quem legitima a UNE não é o estudante brasileiro, isso ficou muito claro em junho, quem na verdade a legitima é a política da Oposição de Esquerda que quer convencer os estudantes que disputar a UNE ainda vale a pena.
          Antes que os camaradas queiram rebater com argumentos de que “a bandeira da ANEL também foi obrigada a ser baixada nos atos”, dizemos com toda sinceridade que infelizmente isso é verdade. Trata-se também de um reflexo da experiência feita por esses jovens que ao longo de 10 anos, não tiveram a UNE como entidade que estivesse em sua defesa, mas sim na defesa das políticas do governo. Além disso, a grande maioria dos jovens brasileiros ainda não perceberam a justeza de construir uma nova entidade estudantil anti-governista que esteja a serviço da luta da juventude e da classe trabalhadora. Porém, esse dia chegará e a juventude que hoje se coloca em movimento construirá sua nova direção e nós acreditamos firmemente que a ANEL contribuirá com este projeto. Dito isso, seria desonesto comparar uma entidade histórica de mais de 70 anos, com uma entidade com 4 anos. Não seria uma análise séria desconsiderar que a falência da UNE na tarefa de defender os interesses da juventude brasileira afeta a consciência desses jovens de um modo a negar qualquer tipo de organização.

Existe uma esquerdização por parte da UNE?


          Segundo León Trotsky, revolucionário russo, uma das características de uma situação revolucionária é a esquerdização da classe média ou pequeno-burguesia, ou seja, quando a classe média de um determinado país apoia massivamente a tomada do poder pelo proletariado. Apesar de não haver uma situação revolucionária no país, é possível afirmar, a partir do apoio massivo da população e de sua participação nas manifestações, que há uma esquerdização da classe média no Brasil, e que parte dos jovens brasileiros estão nesse processo.
          A esquerdização de uma ampla parcela da sociedade é algo fundamental para o avanço das lutas, não só pelo fato de se colocar em movimento um amplo setor, mas também porque pressiona as centrais sindicais burocratas a também se colocarem em movimento: uma base “esquerdizada” pressiona uma esquerdização por parte da sua direção.
          Duas das maiores centrais sindicais do Brasil, Central Única dos Trabalhadores (CUT) e Força Sindical, ambas burocráticas e governistas, foram pressionadas por suas bases a aderirem às paralisações do dia 11 de julho. É fato que elas não queriam participar das manifestações; é fato que o PT, partido que dirige a CUT, não queria sua participação. Porém, a pressão das massas fez com que elas participassem, fazendo com que o dia 11 fosse uma das maiores paralisações da história do movimento sindical brasileiro. Negar isso, como faz o PSOL, é negar uma forma de organização da classe, suas direções, seu nível de consciência e seus métodos de luta.
          A pergunta aqui, no entanto, é: o que aconteceu com a CUT e a Força Sindical também aconteceu com a maior burocracia do movimento estudantil? Ou seja, a juventude saindo às ruas pressionou a UNE a sair também? Fez com que essa entidade adotasse um discurso e uma política mais à esquerda do que vinha fazendo no passado?
          A resposta é “não”! Tal fato não aconteceu e o próprio CSOL confirma isso, em suas conclusões sobre a primeira reunião da diretoria plena da UNE, da qual o PSOL faz parte. Eles afirmam já nas primeiras linhas: “Não houve nenhuma grande novidade na forma de condução do espaço da UNE pela UJS e o restante da diretoria majoritária. Não houve nenhuma grande surpresa na defesa quase que irredutível ao Governo Federal Petista, provando que a tão importante autonomia dos movimentos sociais passa longe da UNE há anos”.[3]
          Isso significa que mesmo com uma mobilização de massas, majoritariamente de juventude, com pautas como 10% do PIB pra educação pública já, Passe Livre já, 10% do PIB pra saúde púbica já, a direção atual continua defendendo o governo do PT e não se sente pressionada a ouvir a voz dos estudantes quem vem das ruas e muito menos defender seus interesses. Mais explícito ainda da falta de compromisso com a juventude brasileira e da não “esquerdização” por parte da UNE é a aprovação do Estatuto da Juventude, um ataque ao direito estudantil da meia entrada. 
          Tal elemento não é secundário e não pode ser ignorado pelos militantes do movimento estudantil, pois caso houvesse uma esquerdização da UNE seria tático discutir se era correto ou não impulsioná-la e a melhor maneira de fazê-lo, fosse por dentro ou por fora da entidade. Porém, uma vez que a UNE não foi legitimada durante as jornadas de junho, e que ela não se sente nem um pouco pressionada em defender os interesses dos estudantes, é possível afirmar que não aconteceu nenhuma virada à esquerda por parte da UNE, e mais, que ela está se consolidando cada vez mais como o braço do governo no movimento estudantil. Por isso, fazemos uma pergunta honesta aos camaradas, o que vocês querem e esperam da União Nacional dos Estudantes?

Negar o velho e construir uma nova direção


          Nesse primeiro momento de mobilização, em que, mesmo havendo um alto salto na consciência dos brasileiros e brasileiras, este ainda não representa um ruptura completa com a sociedade atual. É normal que os milhões de manifestantes que se colocaram em movimento achem mais fácil negar a velha forma de fazer política e suas instituições do que propor o novo.
          O fato de a UNE não construir as lutas nos últimos 20 anos não traz apenas uma consequência objetiva – uma série de derrotas ao movimento estudantil e à juventude brasileira –, mas também um elemento subjetivo: 20 anos sem lutas significa um atraso na consciência do jovem que agora se manifesta na desconfiança por eles com as centrais sindicais, partidos políticos e entidades estudantis. 
          O que os camaradas do PSOL não compreendem, é que parabenizar e enaltecer essa negação por si só é um erro. Quando os camaradas negam o 11 de julho por completo, não diferenciando as centrais que estão apenas contribuindo para o retrocesso da consciência da juventude, nossa verdadeira tarefa é elevar a consciência deles, mostrando que, se é certo que negar PT, CUT, UNE e outras centrais sindicais, também é certo explicar pacientemente para esses novos camaradas que estão se formando nessas mobilizações que é necessário construir uma outra direção, controlada pela base, que seja capaz de conduzir a juventude junto com a classe trabalhadora a uma vitória contra esse regime.
          Ao não propor isso, e ainda mais, ao continuar legitimando uma entidade como a UNE, os camaradas falham na tarefa mais importante: a de mostrar aos jovens e trabalhadores brasileiros que eles são senhores do seu próprio destino, que eles podem e devem romper com a lógica da sociedade atual e construir uma nova sociedade onde não haja nenhuma forma de exploração, e que isso não vai cair do céu, mas apenas com uma luta consciente e organizada, luta esta que exige uma forma sólida de organização.
          Nós da juventude do PSTU, continuaremos nessa perspectiva, a de explicar pacientemente para todos os jovens militantes, camaradas valorosos, que hoje andam lado a lado conosco nas manifestações em todo o Brasil, a necessidade de construir organismos da classe, pela classe e a serviço da classe, para que possamos elevar a qualidade de nossa luta. Nesse sentido, continuaremos a apresentar a ANEL, única entidade estudantil anti-governista capaz de ser o embrião de uma organização muito mais poderosa. A todos que hoje participam das manifestações, é preciso parar de iludir os jovens com o velho, é preciso construir o novo!


Por Guilherme Barbosa, da juventude de FORTALEZA