A
derrota em campo da seleção brasileira em uma Copa do mundo realizada em casa
não foi algo tão imprevisível quanto parece, fora de campo já havíamos perdido
com a realização da Copa do mundo no Brasil e o placar do jogo só reflete o
caráter de classe que estamos vivendo no que diz respeito ao nosso esporte mais
amado. O Futebol Brasileiro vive em crise a muito tempo e a culpa disso tudo
não pode cair em cima dos jogadores e da comissão técnica, longe disso.
O Futebol brasileiro vem sendo
explorado por cartolas burgueses que afastam cada vez mais os torcedores dos
estádios quando transformam nosso futebol de esporte e alegria em mercadoria. A
maioria dos cartolas lucra milhões com a comercialização do nosso amor, e pior,
vendem esse amor para a mídia, que para facilitar e reduzir os custos com a
transmissão privilegiam 12 clubes brasileiros dentre os mais de 500 existentes.
Isso, cada vez mais transforma esse esporte de uma opção de lazer para os
trabalhadores e para a juventude espalhados em todo o Brasil em uma programação
televisiva lucrativa além de uma excelente vitrine de marketing concentrada em
apenas 12 clubes. Um exemplo disso é que só no ano passado os campeonatos
estaduais, os que envolvem mais times, tiveram uma queda de 9,3% na média de
publico em relação ao ano anterior segundo a revista Placar. Os grandes clubes
regionais de massas como o Vila Nova, Santa Cruz, Sampaio Correia, Fortaleza,
Remo e Paysandu sofrem com essa escolha do mercado burguês da bola por que não
conseguem montar times competitivos com essa falta de investimentos e quem
sofre mais ainda com isso são os verdadeiros brasileiros que acompanham esse
esporte frequentemente nos estádios, por que eles tem que se conformar, ou se
alienar, cada vez mais aos grandes clubes do eixo RJ-SP-RS-MG e os operários da
bola que longe de ganharem milhões como os jogadores que atuam nesses clubes
sofrem com a precarização das condições de trabalho, segundo o próprio site da
CBF a média de salário dos jogadores profissionais brasileiros é de 1,5 salários
mínimos e na maioria dos clubes brasileiros faltam estruturas mínimas como
academias.
A realização da Copa do Mundo
no Brasil acelerou ainda mais esse processo de elitização do futebol
brasileiro, o preço do ingresso dos jogos para esses 12 clubes brasileiros
privilegiados pela escolha do mercado e mídia futebolística esta cada vez mais
caro, tirando cada vez mais o torcedor pobre de escanteio, mas isso não é de
hoje, a algum tempo excluíram uma tradição do futebol brasileiro, a geral, onde
os torcedores de menor poder aquisitivo podiam assistir jogos de campeonatos
regionais pagando até 1 real. Essa é a face do caráter de classe desse futebol
moderno gerido por cartolas que mandam na CBF que tem seus dirigentes eleitos
pelos representantes de federações regionais com a unção dos cartolas. A CBF é
uma verdadeira indústria que tem um patrimônio milionário e usa do sentimento
honesto de milhões de brasileiros com relação a seleção para aumentar cada vez
mais seus lucros, sem sequer devolver ao Estado um centavo dos lucros obtidos
com a representação do futebol brasileiro. Os lucros dessa representação devem
ser investidos na iniciação esportiva, para melhorar as condições das bases do
nosso futebol e tirar da extrema precariedade milhões de jovens que sonham em
ser jogadores profissionais mas enfrentam uma dura realidade de falta de
estrutura quando não são enganados por cartolas golpistas.
As propostas do craque Romário
(PSB-RJ) de reverter apenas uma alíquota de 5% dos lucros da CBF para o esporte
brasileiro não resolvem o problema pois não tira nossa paixão, que eles
transformaram em negócio, das mãos dos grandes empresários da bola. A CBF tem
que ser estatizada pois deve ser do povo brasileiro para poder dar condições
mínimas para os jovens que sonham em ser jogadores de futebol e realmente dar
alegria para os brasileiros, como falou honestamente David Luiz, zagueiro da
seleção brasileira. Precisamos apoiar cada vez mais o movimento Bom Senso, que
foi criado por um grupo de jogadores que questiona a tabela exaustiva de jogos
no calendário profissional brasileiro para que ele avance nas reivindicações
por melhores condições de trabalhos para muitos jogadores que jogam longe dos
holofotes da grande mídia e envolver os torcedores que frequentam cotidianamente
os estádios para colocar na pauta do Bom Senso a questão dos preços dos
ingressos, elitização do público, bem como o combate ao racismo, machismo e
homofobia nas arquibancadas .
A luta do futebol brasileiro
também é uma luta contra os grandes empresários e seus representantes
políticos. No congresso existe uma bancada da CBF que votou contra a proposta
mínima do deputado Romario (PSB) de destinar 5% dos lucros da CBF para o
esporte brasileiro, Rodrigo Maia (DEM -RJ), Guilherme Campos (PSD-SP), Arnaldo
Faria de Sá (PTB-SP), José Rocha (PR-BA) , Vicente Cândido (PT-SP), Valdivino de Oliveira (PSDB-GO) e Jovair Arantes (PTB-GO), votaram contra.
Mas todos tem envolvimento diretamente com os cartolas, ou são os próprios
cartolas. Jovair Arantes (PTB-GO) um cartola do futebol goiano chegou ao
absurdo de chamar os jogadores do Atletico-GO de "come e dorme"
quando esses jogadores que frequentemente recebiam salários atrasados
apresentaram um baixo rendimento no campeonato brasileiro deste ano.
Jogando contra essa seleção de
cartolas e essa bancada da CBF, sem uma estrutura de iniciação esportiva
decente, condições de trabalho dignas e salários decentes para os muitos
jogadores brasileiros fora dos holofotes e sem o torcedor trabalhador no
estádio sempre vamos perder de 7 x 1. Ou o futebol brasileiro vai de encontro
ao povo brasileiro e se populariza, ou se fecha e serve de satélite para o
futebol europeu como o futebol regional brasileiro já serve de satélite para o
futebol do eixo RJ-SP-RS-MG.
Igor Dias
Militante do PSTU,
Operário da Agroindústria Goiana
Presidente da Torcida Vila Metal