O
Brasil mudou, sua situação política mudou e o que parecia muito distante até
então veio com uma força acelerada e fulminante. As mobilizações que
aconteceram em junho deste ano já marcam a história das lutas em nosso país. A
transformação na consciência do jovem brasileiro – que passou de uma condição
passiva da política para uma não só ativa, mas cotidiana – permanecerá por
muito tempo e não voltará para o mesmo nível do que era antes de junho. Quase
dois meses após a semana em que dois milhões de pessoas foram às ruas em todo
país, e um mês após a grande mobilização da classe trabalhadora no 11 de julho,
ainda vemos várias manifestações da juventude, como as ocupações das câmaras e
atos com as mais diversas pautas. Isso mostra toda a indignação do jovem
brasileiro.
Porém, para nós marxistas-leninistas,
não basta contemplar o momento único que a história nos proporciona, é preciso
ao máximo estudar a realidade sob a luz do método marxista para melhor
compreendê-la e com isso avançarmos em nossas intervenções cotidianas. Isso
significa que precisamos rever nossas posições políticas, ter sensibilidade
para entendermos que uma alteração na situação política de um país exige uma
alteração na política que vamos propor ao conjunto de ativistas e manifestantes,
que as palavras de ordem antes puxadas já não surtem mais efeito, pois não
estão adequadas para esse momento que passamos e que precisamos avaliar nossas
antigas posições para não nos colocarmos como um empecilho para a transformação
da sociedade.
Queremos aqui fazer uma polêmica
fraterna com os camaradas do PSOL e sua principal política no movimento
estudantil, a permanência na União Nacional dos Estudantes (UNE) a partir da
composição da Oposição de Esquerda.
É de conhecimento de uma parte dos
ativistas e militantes do movimento estudantil brasileiro a recusa do PSOL em
construir a Assembleia Nacional de Estudantes – Livre (ANEL), entidade
estudantil surgida em 2009 com o intuito de se contrapor à política governista
da UNE a partir de uma série de princípios que vão desde a independência
financeira até a aliança operário-estudantil, princípios estes que não existem
na UNE.
Um dos principais argumentos utilizados
pelos camaradas é a legitimidade que a UNE possui no conjunto dos estudantes
brasileiros, o que justificaria a necessidade de participar dos fóruns da UNE,
legitimá-los a partir da tiragem de delegados para seus espaços (como o que
aconteceu recentemente para o CONUNE), e disputar cargos de direção da
entidade.
O CSOL – corrente interna do PSOL que
constrói o coletivo Rompendo Amarras – afirma em um de seus documentos que “O
Conune, maior espaço da entidade, costuma juntar aproximadamente 4 mil
delegad@s e 8 mil estudantes no total. A tiragem de delegad@s por universidade,
tendo quorum mínimo de 5 % do total de estudantes matriculados, significaria
que aproximadamente 4 milhões de estudantes estariam “representad@s”. A
expectativa da oposição de esquerda da UNE é de ter aproximadamente 400
delegad@s, sendo 400 mil “representad@s”[1]. Já o MES – outra corrente interna do PSOL
que constrói o coletivo Juntos – também se ancora no argumento da legitimidade
da UNE entre a maioria dos estudantes brasileiros, e esta fala se confirma
quando, no vídeo de chamado ao 53º CONUNE, uma das principais figuras públicas
deste coletivo é o responsável por sustentar tal argumento. [2]
Na lógica dos companheiros e
companheiras do PSOL, uma vez que existe uma maioria esmagadora dos estudantes
que legitimam e se sentem representados pela UNE, não é suficiente disputá-los
diretamente em suas escolas e universidades, não são suficientes as ações
clássicas do movimento estudantil, como passagens em salas e panfletagens nos
Restaurantes Universitários. Não, a disputa só se tornaria completa quando
participamos de todos os fóruns da UNE; só se tornaria completa quando
tirássemos delegados para poder intervir com mais “qualidade” nos espaços; só
se tornaria completa quando para “negá-la”, precisássemos afirmá-la ainda mais
e numa proporção muito maior do que nossa suposta negação.
Mesmo esse argumento por si só não
sendo válido, a pergunta que precisamos fazer é: seria a UNE tão legítima e
representativa para o jovem brasileiro como afirma o PSOL? Nas jornadas de
junho, na semana entre 17 e 23, saíram às ruas mais de 2 milhões de pessoas em
todo o Brasil, em sua maioria divididos em alguns grupos de secundaristas,
universitários, e por fim (e provavelmente o grupo mais volumoso) jovens com
empregos precarizados, que trabalham de dia para pagar o seu estudo, em uma universidade
particular, à noite.
Façamos um pequeno cálculo matemático
agora: o PSOL afirma que milhões de estudantes (e, portanto milhões de jovens)
legitimam e se sentem representados pela UNE, e a realidade nos mostra que
milhões de jovens foram às ruas em junho. Não seria absurdo dizer que entre
esses dois conjuntos (1. número de jovens que legitimam a UNE e 2. número de
jovens que foram às ruas) há uma generosa intersecção de pelo menos alguns
milhares de estudantes. Por que não se via jovens saírem de suas casas
enrolados na famosa bandeira azul da entidade? E mais, por que nas mobilizações
em todo o país esses jovens mandaram baixar as bandeiras da entidade que
supostamente eles legitimam e se sentem representados?
A resposta não pode ser outra, e não
é: a verdade é que a UNE não representa a juventude que saiu às ruas; que a UNE
que foi protagonista nas lutas do passado já não existe mais; e que essa
juventude que está disposta a se chocar contra todas as formas de governos, só
conhece a UNE a partir das fotos e a associa com o que há de pior na política
brasileira e pelos regulares ataques que ela faz aos direitos estudantis. Quem
legitima a UNE não é o estudante brasileiro, isso ficou muito claro em junho,
quem na verdade a legitima é a política da Oposição de Esquerda que quer
convencer os estudantes que disputar a UNE ainda vale a pena.
Antes que os camaradas queiram
rebater com argumentos de que “a bandeira da ANEL também foi obrigada a ser
baixada nos atos”, dizemos com toda sinceridade que infelizmente isso é
verdade. Trata-se também de um reflexo da experiência feita por esses jovens
que ao longo de 10 anos, não tiveram a UNE como entidade que estivesse em sua
defesa, mas sim na defesa das políticas do governo. Além disso, a grande
maioria dos jovens brasileiros ainda não perceberam a justeza de construir uma
nova entidade estudantil anti-governista que esteja a serviço da luta da
juventude e da classe trabalhadora. Porém, esse dia chegará e a juventude que
hoje se coloca em movimento construirá sua nova direção e nós acreditamos
firmemente que a ANEL contribuirá com este projeto. Dito isso, seria desonesto
comparar uma entidade histórica de mais de 70 anos, com uma entidade com 4
anos. Não seria uma análise séria desconsiderar que a falência da UNE na tarefa
de defender os interesses da juventude brasileira afeta a consciência desses
jovens de um modo a negar qualquer tipo de organização.
Existe
uma esquerdização por parte da UNE?
Segundo León Trotsky, revolucionário
russo, uma das características de uma situação revolucionária é a esquerdização
da classe média ou pequeno-burguesia, ou seja, quando a classe média de um
determinado país apoia massivamente a tomada do poder pelo proletariado. Apesar
de não haver uma situação revolucionária no país, é possível afirmar, a partir
do apoio massivo da população e de sua participação nas manifestações, que há
uma esquerdização da classe média no Brasil, e que parte dos jovens brasileiros
estão nesse processo.
A esquerdização de uma ampla parcela
da sociedade é algo fundamental para o avanço das lutas, não só pelo fato de se
colocar em movimento um amplo setor, mas também porque pressiona as centrais
sindicais burocratas a também se colocarem em movimento: uma base
“esquerdizada” pressiona uma esquerdização por parte da sua direção.
Duas das maiores centrais sindicais
do Brasil, Central Única dos Trabalhadores (CUT) e Força Sindical, ambas
burocráticas e governistas, foram pressionadas por suas bases a aderirem às
paralisações do dia 11 de julho. É fato que elas não queriam participar das
manifestações; é fato que o PT, partido que dirige a CUT, não queria sua
participação. Porém, a pressão das massas fez com que elas participassem,
fazendo com que o dia 11 fosse uma das maiores paralisações da história do
movimento sindical brasileiro. Negar isso, como faz o PSOL, é negar uma forma
de organização da classe, suas direções, seu nível de consciência e seus
métodos de luta.
A pergunta aqui, no entanto, é: o que
aconteceu com a CUT e a Força Sindical também aconteceu com a maior burocracia
do movimento estudantil? Ou seja, a juventude saindo às ruas pressionou a UNE a
sair também? Fez com que essa entidade adotasse um discurso e uma política mais
à esquerda do que vinha fazendo no passado?
A resposta é “não”! Tal fato não
aconteceu e o próprio CSOL confirma isso, em suas conclusões sobre a primeira
reunião da diretoria plena da UNE, da qual o PSOL faz parte. Eles afirmam já
nas primeiras linhas: “Não houve nenhuma grande novidade na forma de condução
do espaço da UNE pela UJS e o restante da diretoria majoritária. Não houve
nenhuma grande surpresa na defesa quase que irredutível ao Governo Federal
Petista, provando que a tão importante autonomia dos movimentos sociais passa
longe da UNE há anos”.[3]
Isso significa que mesmo com uma
mobilização de massas, majoritariamente de juventude, com pautas como 10% do
PIB pra educação pública já, Passe Livre já, 10% do PIB pra saúde púbica já, a
direção atual continua defendendo o governo do PT e não se sente pressionada a
ouvir a voz dos estudantes quem vem das ruas e muito menos defender seus
interesses. Mais explícito ainda da falta de compromisso com a juventude
brasileira e da não “esquerdização” por parte da UNE é a aprovação do Estatuto
da Juventude, um ataque ao direito estudantil da meia entrada.
Tal elemento não é secundário e não
pode ser ignorado pelos militantes do movimento estudantil, pois caso houvesse
uma esquerdização da UNE seria tático discutir se era correto ou não
impulsioná-la e a melhor maneira de fazê-lo, fosse por dentro ou por fora da
entidade. Porém, uma vez que a UNE não foi legitimada durante as jornadas de
junho, e que ela não se sente nem um pouco pressionada em defender os
interesses dos estudantes, é possível afirmar que não aconteceu nenhuma virada
à esquerda por parte da UNE, e mais, que ela está se consolidando cada vez mais
como o braço do governo no movimento estudantil. Por isso, fazemos uma pergunta
honesta aos camaradas, o que vocês querem e esperam da União Nacional dos
Estudantes?
Negar
o velho e construir uma nova direção
Nesse primeiro momento de
mobilização, em que, mesmo havendo um alto salto na consciência dos brasileiros
e brasileiras, este ainda não representa um ruptura completa com a sociedade atual.
É normal que os milhões de manifestantes que se colocaram em movimento achem
mais fácil negar a velha forma de fazer política e suas instituições do que
propor o novo.
O fato de a UNE não construir as
lutas nos últimos 20 anos não traz apenas uma consequência objetiva – uma série
de derrotas ao movimento estudantil e à juventude brasileira –, mas também um
elemento subjetivo: 20 anos sem lutas significa um atraso na consciência do
jovem que agora se manifesta na desconfiança por eles com as centrais
sindicais, partidos políticos e entidades estudantis.
O que os camaradas do PSOL não
compreendem, é que parabenizar e enaltecer essa negação por si só é um erro.
Quando os camaradas negam o 11 de julho por completo, não diferenciando as
centrais que estão apenas contribuindo para o retrocesso da consciência da
juventude, nossa verdadeira tarefa é elevar a consciência deles, mostrando que,
se é certo que negar PT, CUT, UNE e outras centrais sindicais, também é certo
explicar pacientemente para esses novos camaradas que estão se formando nessas
mobilizações que é necessário construir uma outra direção, controlada pela
base, que seja capaz de conduzir a juventude junto com a classe trabalhadora a
uma vitória contra esse regime.
Ao não propor isso, e ainda mais, ao
continuar legitimando uma entidade como a UNE, os camaradas falham na tarefa
mais importante: a de mostrar aos jovens e trabalhadores brasileiros que eles
são senhores do seu próprio destino, que eles podem e devem romper com a lógica
da sociedade atual e construir uma nova sociedade onde não haja nenhuma forma
de exploração, e que isso não vai cair do céu, mas apenas com uma luta
consciente e organizada, luta esta que exige uma forma sólida de organização.
Nós da juventude do PSTU,
continuaremos nessa perspectiva, a de explicar pacientemente para todos os
jovens militantes, camaradas valorosos, que hoje andam lado a lado conosco nas
manifestações em todo o Brasil, a necessidade de construir organismos da
classe, pela classe e a serviço da classe, para que possamos elevar a qualidade
de nossa luta. Nesse sentido, continuaremos a apresentar a ANEL, única entidade
estudantil anti-governista capaz de ser o embrião de uma organização muito mais
poderosa. A todos que hoje participam das manifestações, é preciso parar de
iludir os jovens com o velho, é preciso construir o novo!
Por
Guilherme Barbosa, da juventude de FORTALEZA